Dos sentimentos do Natal

 

 

Mãe, Alexandre e Carmélia

Minha mãe querida com meu irmão Alexandre no colo e eu, ao lado dela.

Todos os anos, minha mãe montava o presépio de Natal. Era tudo muito simples. Muitas vezes, ele esteve lá, aproveitando-se o espaço de um móvel. Nas montagens mais sofisticadas, minha mãe ia a um depósito de siderúrgica que ficava numa área aberta próxima à nossa casa e trazia escórias de minério para utilizar na estrutura.  Quando ficamos um pouco mais “ricos”, ela comprou um pisca-pisca e acrescentou à cena.Nossa primeira árvore foi uma das minhas irmãs que comprou, cheia de entusiasmo por já ter um salário e poder proporcionar aquele presente para a família. Lembro bem. Era branca e devia ter perto de um metro de altura. Minha irmã, sempre cuidadosa comigo e com meu irmão mais novo, fazia questão de nos incluir na montagem. Eram ocasiões mágicas.

Eu, com meus olhos brilhantes de menina deslumbrada, observava a tudo. Como era linda aquela árvore branca! E as bolas coloridas! Muitas vezes, eu ficava por um longo tempo admirando o presépio, tocada pela história do nascimento de Jesus e “viajando” em cada um dos momentos representados. E, quando chegava o Natal, eu me sentia muito feliz e em paz, pois tinha aprendido com meus pais e na escola que o verdadeiro sentido da data era o nascimento de Jesus, e achava especial demais preparar meu coração porque Jesus renasceria nele.

Na nossa casa, ou o Papai Noel passava quando a gente não estava ou ele deixava nossos presentes à porta, depois que dormíssemos, o que exigia que meu irmão e eu colocássemos um par de sapatos para que o bom velhinho soubesse quais eram as crianças da casa. Uma vez, eu estava esperando ansiosamente ganhar um “bonecão”, um bebê de plástico que vinha só com uma espécie de fralda e que era o máximo. Pois foi eu ir um pouquinho à casa da Tia Ção, na noite do dia 24, para, ao voltar, encontrar o bonecão em cima da cama, e uma das minhas irmãs me dizer que o Papai Noel havia passado e o deixado para mim. Foi uma felicidade pelo presente e uma frustração por ter perdido a passagem do Papai Noel. O bom foi que ninguém desmentiu, e  assim eu ia aprendendo a lidar com decepções, o que é necessário para todos nós.

Sabíamos que o mais importante não eram os presentes, mas, como as outras crianças, também esperávamos por um presentinho. Podia ser o mais modesto possível. Nem sempre meus pais tinham dinheiro para comprar, mas as minhas irmãs, que já trabalhavam, se encarregavam disso. O que  ganhássemos era motivo de festa. Um par de meias, um joguinho de xícaras, daqueles de plástico, um carrinho; para nós tinham um valor imensurável.

“E tudo vai ficando para trás”, é uma das últimas falas de uma personagem do espetáculo teatral “Pelos caminhos das rosas vermelhas” (Grupo de Teatro Iluminartt), que eu escrevi. “Tudo vai ficando para trás. E a vida segue.” E, quanto mais vivemos, mais vemos que é assim mesmo. Mas o que vivemos permanece conosco. E nos faz ser o que somos.

Muitas pessoas ficam deprimidas na época das comemorações natalinas. Talvez porque Natal lembre amor e união de família, pessoas queridas que não estão mais conosco, alegria que pode não estar presente… e, ao que parece, nessa época, os vazios doem mais… Entre as muitas coisas que fazem a vida, estão as perdas. Viver é ganhar e perder. E todos carregamos dores. Mas a gente tem que ser forte porque a gente está vivo, e a gente precisa viver. E podemos escolher viver da melhor forma ou da melhor dentro do que é possível. Sempre nos equilibrando.

É Natal. Se as coisas não são como antes ou como queríamos, que saibamos aceitar e que a dor não seja tanta. Que possamos agradecer pelo que temos e não lamentar pelo que não temos. E, se temos a alegria de contar com todos os nossos entes queridos, que aproveitemos ao máximo, pois  o afeto é o que realmente nos alimenta. Seja como for, não esqueçamos que, parafraseando  Rubem Alves: “a felicidade mora no momento; por isso, não percamos o agora”.

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