Uma noite pra dormir com minha mãe

Na noite de ontem, eu dormi com minha mãe. Dormi abraçada a ela, sentindo o perfume do seu cabelos, a textura da sua pele. Por vezes, acordei sobressaltada e conferi se ela estava respirando, como ela deve ter feito comigo tantas vezes quando eu era criança. Em uma das vezes em que acordei, abracei-a mais forte, pus a mão abaixo do seu peito e senti as batidas do seu coração. Fiquei imóvel, só para ficar sentindo as batidas daquele coração. Até que adormeci novamente.

mãe e filhoJá faz um bom tempo que, vez ou outra, vem me o poema “Orfandade”, de Adélia Prado. “Meu Deus, me dá cinco anos (…) me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe. Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável…” Esse poema é de uma beleza e uma melancolia tão imensas que me dói no fundo da alma. Ele me adentra de uma forma tão intensa que não sei explicar bem… Talvez porque me antecipe a sensação de não ter mais minha mãe comigo. Talvez porque eu fique pensando em pessoas cuja mãe já deixou este mundo e seja capaz de transferir para mim o sentimento delas, sentindo como se fosse elas… ou as duas coisas juntas. Há tempos eu pensava nessa “noite para eu dormir com minha mãe”, e eu a tive na noite que se passou, em plena véspera do Dia das Mães. Dou-me conta disso e me sinto agradecida.

Penso que o amor mais puro, verdadeiro e intenso ė o amor de mãe. Não estou desmerecendo o amor de pai ou outros amores nem querendo medir o amor, pois amor não se mede, se dá e se recebe, e todo amor é grandioso e importante. O amor de mãe tem sua especificidade, como outros tem, e tem uma especialidade única. Será por ela ter gerado, ter dado à luz?

Hoje é Dia das Mães. Eu poderia estar triste porque minha mãe, roubada pelo Alzheimer, não é mais aquela que sempre foi, que trazia vida nos olhos, que era uma explosão de força e energia. Aquela mulher por vezes brava, geniosa sempre, mas cheia de alegria, entusiasmo e amor pela vida. E que hoje parece a tristeza em pessoa. Eu poderia. E confesso que estou. Mas aí vêm minhas leituras e me salvam, como de costume. O Fabrício Carpinejar tem uma crônica em que ele diz que “feliz é o filho que é pai do seu pai antes da morte”. Então eu penso em como tem sido ajudar a cuidar da minha mãe, tão frágil e indefesa, e que estou tendo a oportunidade de ser um pouquinho mãe dela, e de estar ainda mais perto dela. E penso também que não tenho que estar triste, tenho que estar feliz porque ela está aqui conosco. E é isso que busco fazer. A demência da minha mãe me trouxe muitas tristezas, mas intensificou em mim também a certeza: a de aproveitar cada momento.

“Sorria e abrace seus pais enquanto estão aqui”, diz a música tocante de Ana Vilela, que tem sido bastante compartilhada. É mesmo um belo e sábio conselho. Mas eu diria mais: não adianta apenas sorrir e abraçar seus pais, isso é muito simples, é preciso fazer tudo que puder por eles. E dizer eu te amo pode ser bonito, mas não vale nada se não estiver acompanhado de ações, o mais importante é exercitar esse amor, o que se faz com gestos e com atitudes muito mais que com palavras. E, por mais que fizermos, e eu desconfio que seja assim, pode acontecer, ainda, se eles forem antes de nós, de nos perguntarmos se fizemos o suficiente.

Um feliz Dia das Mães a todas as mães!

Carmélia Cândida

Imagem: Mãe e Filho (detalhe do quadro As Três Idades da Mulher), de Gustav Klimt

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